Com a presença de 32 pessoas, dentre elas acadêmicos da Unisinos e, principalmente, lideranças comunitárias de diferentes cidades do Vale dos Sinos, bem como da palestrante Maria Dinorá Rodrigues – Coordenadora da Central Única das Favelas – CUFA/RS, no dia 04 de junho o IHU debateu a temática “Crack – a epidemia silenciosa”.
Dinorá iniciou enfatizando que nos últimos 20 anos, o crack tem se tornado indiscutivelmente uma arma de destruição em massa. Derivado da folha da cocaína e associado a outros componentes químicos como a solução de bateria, o éter e a acetona, o crack é conhecido pelo seu alto poder de dependência física e ação no sistema nervoso central.
Oito vezes mais potente que a cocaína e com efeito instantâneo, o crack atingiu níveis elevados de consumidores. Usado através da inalação, a droga chega ao cérebro em até 15 segundos, eleva os batimentos cardíacos e pressão arterial, ocasionando resultados que podem ser letais. No longo prazo, estudos comprovam que ele prejudica diretamente a memória e a habilidade motora, bem como o comportamento social das pessoas.
A origem da palavra e a produção do crack
A palavra crack está ligada a um dos seus componentes, pois vem do som que a pedra de cristal faz quando é aquecida no cachimbo de crack. Esse som é causado pelo bicarbonato de sódio. Também porque o bicarbonato, ao final do processo de produção fica “craquelado”, fazendo uma barulho de quebra, de “crack”.
Seu processo de produção inicia quando a folha da coca é misturada com água, querosene, acido sulfúrico e amoníaco, virando então a pasta de cocaína crua. Esta pasta base é misturada a uma solução ácida e a permanganato de potássio. Depois ainda é acrescentado amoníaco, acetona, éter, ácido clorídrico e bicarbonato, em diferentes processos de filtragem e secagem. O pior desse processo todo, segundo a palestrante Dinorá, é que ele se encontra detalhado em sites da internet, que hospedam verdadeiros manuais de instruções de como produzir a droga.
O uso do crack
Após sua inalação em forma de fumaça, o crack penetra os neurônios, e bloqueia a absorção de dopamina, uma substância responsável pelo prazer. A dopamina se acumula entre os neurônios e encharca o cérebro com sensações de euforia. Esse processo demora de 10 a 15 segundos. O efeito dura pouco tempo, 10 minutos, no máximo, o que obriga a repetição da dose quase que instantaneamente. Ele causa ao usuário em torno de 10 minutos de “super euforia” e o mesmo tempo depois, de intensa depressão.
Assim, o crack leva a um alto consumo, viciando oito vezes mais rápido do que a própria cocaína. Se inalado com álcool, as duas substâncias podem se combinar no fígado e produzir uma substância química chamada cocaetileno. Essa substância tóxica e potencialmente fatal produz um “barato” mais intenso que o crack sozinho, mas também aumenta ainda mais o ritmo cardíaco e a pressão arterial, levando a resultados letais.
Algumas conseqüências do crack
Dinorá afirmou que o crack traz conseqüências físicas e sociais. Como principais conseqüências físicas, pode-se citar agitação psicomotora, aumento da pressão arterial, emagrecimento, convulsões, danos no aparelho respiratório, desmaio, cansaço, hemorragia cerebral, lábios/língua/garganta queimados, tosse, tremor, derrame cerebral e a morte.
Em relação as conseqüências sociais ele incentiva a prostituição de homens e mulheres, sendo que nas segundas gera gravidez em muitos casos. A gravidez no caso da maioria das meninas é devida a prostituição pela droga. Sem dinheiro, elas fazem “favores” sexuais. Estima-se que a cada três dias, nasce uma criança, filho de uma jovem viciada em crack. Muitas consomem a droga até o ultimo minuto antes do parto.
Foram observados nos bebês nascidos de usuárias do crack, os seguintes sintomas: choro intenso e irritabilidade, infecção generalizada, problemas respiratórios, hemorragia cerebral, infecção por hepatite B, déficit pulmonar, insuficiência hepática e até mesmo a morte. Em crianças maiores, pode-se observar o retardamento mental moderado. Torna-se então uma discussão intensa à medicina, que deve pensar como desintoxicar a criança, que provavelmente tenha sido intoxicada quando feto.
Ainda, como conseqüências sociais, gera aos próprios usuários, dificuldades de estabelecer relações afetivas, perda da autocrítica, paranóia, psicose, marginalidade, dentre outros.
A proliferação do crack
Além da dependência que gera e da necessidade de uso repetido intensamente, pela pouca durabilidade do seu efeito, outro fator que gera a proliferação do crack é que ele é um negócio muito rentável aos traficantes e permite cooptar para trabalhar com a droga pessoas que estão fora do mercado de trabalho e, mesmo sem consumir a droga, acabam entrando no negócio para ter trabalho e renda. Estima-se que um traficante, em uma Vila, sustenta aproximadamente 80 famílias.
Assim, em 2008, no Brasil, foram circulados aproximadamente 1,5 bilhões de recursos em torno do crack. Em termos de consumo, o Rio Grande do Sul é o quarto estado que mais consome a droga, consumindo em torno de 2 toneladas por mês, o que faz girar cerca de 41 milhões de reais ilegais.
O atendimento aos usuários
Por fim, Dinorá destacou que existe também um problema relacionado a rede de atendimento. As políticas públicas e a estrutura do Estado, bem como da própria sociedade civil, não estão preparadas para atender demandas oriundas do crack. Porto Alegre, por exemplo, tem um único posto de saúde e o Hospital São Pedro, que fazem o processo de desintoxicação com antidepressivos, porém sem dar um acompanhamento maior na continuidade deste processo. O que existe são algumas fazendas terapêuticas particulares com este serviço.
Novas drogas e a atuação da CUFA
Alertou ainda para o surgimento (chegada ao Brasil e ao RS) de duas drogas, ainda mais devastadoras que o crack, que são o oxi e o cristal. A CUFA tem projetos relacionados ao problema das drogas e vem buscando articular ações e campanhas contra o crack, realizadas por diferentes atores sociais, que por vezes acabam ocorrendo de forma isolada. Quem quiser conhecer mais sobre o trabalho da CUFA/RS pode acessar o site www.cufars.org.br. Todos podemos contribuir de alguma forma neste combate, ou não? (Postado por Lucas Luz com base no material da palestrante e nos relatos escritos por Fernanda Ferreira Canfield e Marilene Maia, presentes no evento).

17/06/2009 às 09:59
que consequencia o crack traz para a sociedade
23/06/2009 às 16:12
Olá Guilherme!
Acredito que são várias e perpassam problemas de saúde pública, uma vez que afetam a saúde dos usuários e dos seus dependentes presentes e de gerações futuras. Além disso, problemas sociais, pois acaba gerando violência, poder paralelo, aumentando número de pessoas que se afastam da família e vão para as ruas, dentre outros. E você o que acha a respeito?
30/07/2009 às 05:04
Sou estudante universitário, tenho 24 anos, classe média alta e fui viciado em CRACK por três anos. Vivi toda essa realidade que se tem mostrado atualmente, conheço muito bem o crack. O crack não é mais uma droga de pobre, isso acabou faz tempo. Eu fumava de 10 a 15 pedras ao dia. Perdi muito por causa do crack, por pouco não me tornei um mendigo. Depois de 3 dias acordado, sem comer e muito menos banho (eu fedia), eu me olhei no espelho e vi o que eu havia me tornado.
Decidi, naquele momento, que tinha que parar e que só dependeria de mim. Como ha 7 anos me mudei da cidade onde meus pais moram e eu os visito muito pouco, eles nunca souberam do vício. Acho que eles desconfiavam, mas… de forma geral, minha família nunca soube. Apenas alguns amigo próximos tinham conhecimento do que acontecia. Acho que isso acabaria com minha família.
Por isso, nunca procurei ajuda. Isso sempre foi segredo, pelo menos na minha cabeça. Quando decidi parar, eu sabia que teria que ser sozinho, somente com muita força de vontade. Consegui me livrar sozinho. Hoje me sinto ótimo e não tenho mais vontade. Claro que penso e me lembro, mas a vontade de viver é maior. Acho que só depende de buscar uma motivação interior capaz de nos fazer superar o crack. Todos podemos.
O que acho engraçado nisso tudo é que o crack atingiu enormes proporções pelo país. O Estado de São Paulo é o maior consumidor e só agora se preocupam com a cracolândia. E o resto do país? O Rio Grande do Sul enfrenta uma epidemia da droga. Só não tem crack no Amazonas! E o resto do país. Temos que abrir os olhos porque o problema do crack não é só mais dos pobres, é da classe média também. E a é a classe que tem poder aquisitivo muito mais alto. Quanto dinheiro isso levará ao tráfico? E de quanto será o rombo nos cofres públicos com tratamentos e campanhas que pouco funcionam?
Me senti preso nesse mundo, por 3 incontáveis anos, que se passaram como o vento! Hoje tento mostrar a realidade do crack a todos em meu blog. Tem minha história e mais muita coisa sobre o crack, o vício, muitos conselhos e principalmente como me livrei da droga. Hoje estou sem o crack ha 50 dias. Somente uma sociedade unida poderá vencer essa droga. Ela tem o poder de destruir tudo!
Visitem e me conheçam melhor:
http://www.cracknuncamais.blogspot.com
25/08/2009 às 01:49
Realmente não vale a pena entrar nessa vida que só leva a desgraça!