Por André Dick
O fato de Cabral afirmar, de forma objetiva, que nunca escreveu sobre si mesmo era realmente seu maior fingimento: o poeta gostava era de escrever sobre seus gostos, seu diálogo com poetas, suas experiências, suas lembranças, mas sempre de forma melancólica, que, no seu caso, transparecia na estrutura de seus poemas, considerada “fria” e “calculista”, e na musicalidade contida (o poeta não gostava de ouvir música). João Cabral não escondia que seu sonho inicial era escrever como Drummond. Sua poesia, como lembra Faustino, teria sido impossível sem a existência prévia do mineiro. Depois de ler Sentimento do mundo, escreveu ao mestre, numa carta de 1941, que o livro acentuou sua “solidão de indivíduo, cada dia mais agravada”. E, igual a Drummond, Cabral tentou lançar mão de sua melancolia desde Pedra do sono, seu primeiro livro. Em “Poema” escreve: “Ficarei indefinidamente contemplando / meu retrato eu morto”, em “Poema deserto”: “Eu me anulo me suicido, / percorro distâncias inalteradas”. Na estrofe final de “O fim do mundo”, de O engenheiro, seu segundo livro, escreve: “No fim de um mundo melancólico / os homens leem jornais. / Homens indiferentes a comer laranjas / que ardem como o sol”.

Nenhum outro poema, no entanto, talvez exprima essa melancolia do que o poema que segue abaixo, não incluído na obra completa de Cabral, feito para Drummond, quando os dois poetas eram amigos:
Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.
Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas
E outros não-fazeres.
É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.
Eu nunca suspeitaria
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras –
Funcionárias, sem amor.
Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.
E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos do meu corpo
(…)
Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.
A amizade entre Cabral e Drummond se movia entre a melancolia, o trabalho da burocracia (“nosso pão e nosso câncer”, segundo Drummond, e poder-se-ia dizer sobretudo “nosso pão”) e a literatura. Como ainda percebe Faustino, embora Cabral tenha mais rigor, sua obra tem “menos intensidade”do que a de Drummond. Essa intensidade menor certamente é uma conclusão da melancolia mais acentuada: enquanto Drummond utilizava, por exemplo, o verso mais longo, Cabral era simétrico – sua simetria é subjetiva e reflexo do desalento, embora, para alguns críticos, isso indique uma desumanização. (Não por acaso, uma relação entre dois melancólicos, como Drummond e Cabral, só poderia terminar, depois de um rompimento, em silêncio.)

Castello lembra em sua biografia que Cabral, em 1986, havia sido convidado pelos filhos a voltar para Recife, recusando o convite, pois a maior parte dos amigos estavam mortos: “Não, o passado não me interessa”. O passado interessava – e muito – ao poeta, e se pronunciou, quase que autobiograficamente, a partir de Museu de tudo, em diversos poemas que relembram amigos, chegando ao ponto mais alto em A escola das facas, no qual se recorda ambiente da infância, embora Agrestes seja possivelmente o de origem mais autobiográfica, tratando seguidamente da velhice e da morte. Mas é inegável a imagética nordestina de toda a sua obra: o rio Capibaribe, por exemplo, retorna em muitos escritos, como O cão sem plumas, e o sertão pernambucano, por sua vez, é continuamente lembrado em vários livros.
Julia Kristeva, em Sol negro, escreve que o homem melancólico vive num espaço imaginário, em que o passado não passa. O passado, na poesia cabralina, não passa e, incapaz de pertencer a sentimentos vagos, dispersos, necessita se cristalizar em palavra mineral (a imagem é dele mesmo). Esta melancolia, no entanto, não é paralisante e se mescla à ironia, ao bom-humor, a uma alegria solar (sobretudo em Paisagens com figuras) e à paixão (seus poemas sobre figuras femininas, como “Estudos para uma bailadora andaluza” e “Paisagem pelo telefone”, são de uma sensibilidade notável). Cabral tornou sua melancolia em elemento para seu papel poético. Há em sua obra uma revisão de descoberta, sobretudo nos poemas quase lúdicos (como “Poema (s) da cabra”, “Jogos frutais”, “O ovo de galinha”, “‘Generaciones y semblanzas’” e “O relógio”), em que parece mesclar um discurso filosófico à nomeação infantil, desautomatizada. Neles, também há um sentimento – melancólico – que surge quando o poeta se volta aos mesmos ambientes, sem poder preenchê-los, pois as lembranças deixam lacunas. Mesmo a metalinguagem de muitos poemas, como Uma faca só lâmina, ou “O sim contra o sim” (de Serial), mostram uma melancolia incorporada à memória do diálogo artístico. Castello acerta, nesse sentido, ao selecionar fragmentos de poemas que dialogam com etapas da vida do poeta, mostrando como a existência está ligada à escritura e a linguagem não é um objeto autônomo que utiliza o poeta para se expressar. Atribuindo as próprias dúvidas a uma poeta de sua predileção, ele escreve em “Dúvidas apócrifas de Marianne Moore”:
Sempre evitei falar de mim,
falar-me. Quis falar de coisas.
Mas na seleção dessas coisas
não haverá um falar de mim?
Não haverá nesse pudor
de falar-me uma confissão,
uma indireta confissão,
pelo avesso, e sempre impudor?
A coisa de que se falar
até onde está pura ou impura?
Ou sempre se impõe, mesmo impura-
mente, a quem dela quer falar?
Como saber, se há tanta coisa
de que falar ou não falar?
E se o evitá-la, o não falar,
é forma de falar da coisa?
Analisando especificamente esse poema, Antonio Carlos Secchin observa que a poesia cabralina é “sutilmente confessional, urdindo uma espécie de autobiografia em terceira pessoa”, sendo “pela marca exaustiva de determinados signos que se vai desenhando o rosto de quem a imprime”. Nesse sentido, Cabral compreendeu de forma rara a linguagem, sendo, ao mesmo tempo, estratégico, e expansivo, ao se educar pela razão, mas também pelo sentimento, transformando sua despersonalização numa personalização diferenciada daquela que ele enxergava como romântica, o que conduz seu trabalho à “imitação da forma” estudada por João Alexandre Barbosa.
Um questionamento fundamental, hoje, é se João Cabral foi o maior poeta da poesia brasileira. Os grandes poetas acabam tendo pontos em comum. Nesse caso, Flora Süssekind afirma que Cabral apresenta, em sua obra, “(…) pensando na poesia moderna, a diccção simples de Manuel Bandeira, as marcas da prosa no verso, características de Carlos Drummond de Andrade, a compreensão da poesia como construção, como em Joaquim Cardozo, a plasticidade das imagens de Murilo Mendes”. Igualmente, pode-se lembrar a influência (não no sentido agônico de Harold Bloom) na poesia cabralina de outros nomes, como Baudelaire, Mallarmé, Marianne Moore, W. H. Auden, William Carlos Williams, Francis Ponge, Cesário Verde etc. Mas pode haver uma diferença, aquilo a que o poeta francês Paul Valéry em alguns textos seus, chama de ética da recusa. É quanto a tal ética que João Cabral se sai tão forte dentro da tradição, suscitando a fortuna crítica de sua obra.
Baseado nessa obra que não existiria sem o conhecimento da tradição, sem o interesse pelo diálogo da literatura com outros campos, há, de modo panorâmico, passagens muito curiosas no livro O homem sem alma, de José Castello. Destacam-se aquelas que retratam seus momentos de amizade com poetas que também o instigaram, como Drummond, Bandeira e Vinicius de Morais, além de seus amigos mais próximos Willy Lewin e Joaquim Cardozo. Ainda, o desinteresse de Oswald e Mário de Andrade por seu trabalho.

Alguns momentos de sua vida chamam a atenção: a aversão inicial à poesia, o estudo com os irmãos maristas, a experiência como jogador de futebol, a amizade com os empregados da fazenda da família (já sintetizada no poema “Descoberta da literatura”) e a perseguição que sofreu quando acusado de comunismo. Fala-se muito de suas atividades como embaixador, mas, ao invés da burocracia monótona, Castello enfoca os elementos que cercavam Cabral: sua contínua enxaqueca, as amizades com artistas espanhóis (como o pintor Miró e o poeta Joan Brossa) e com políticos (de países onde morou). É interessante acompanhar a história de sua passagem por cidades como Londres, Sevilha, Madri, Quito e Dacar, fazendo com que Castello escreva que Cabral, na carreira como diplomata, tornou-se um “profissional do subterfúgio, em um viajante que veste e despe países e culturas ao longo de seus dias, um trânsfuga que jamais cessa de fugir”. Mas não parece ser por acaso que as cidades que menos aparecem (ou não aparecem) em sua poesia são aquelas em que o clima não lembra Pernambuco: Genebra, Marselha e Londres. A vida no estrangeiro é sempre atenuada pela lembrança de uma paisagem menos fria. Na descrição de sua visita a João Cabral, em Sevilha, no ano de 1956, quando foi levado pelo poeta diplomata, em seu Chevrolet Bel-Air para conhecer Sevilha, Pignatari escreve que o poeta pernambucano/espanhol “inebriava-se com as sedutoras franquias de Sevilha, feito noviço enamorado de toros, flamenco, cante jondo”, levando-o “aos melhores tablados e ao curral de touros antes do sorteio para os espadas, e à mistura de deboche e contra-reforma dos bailaores e das bailaoras suspendendo com os esguios e fluidos corpos os tacos dos sapatos nos tablados”. Difícil imaginar que tais cenários não tenham despertado a criação de poemas como “Estudos para uma bailadora andaluza” e “Sevilha” (ambos de Quaderna), a seção “Ainda, ou sempre, Sevilha” (de Agrestes) ou livros como Sevilha andando.

A exemplo do que escreve João Alexandre a respeito de O cão sem plumas (e da obra cabralina): “É a realidade da linguagem, a sua viva e espessa função no plano da invenção poética que permite a maior abertura para a realidade de circunstância que se incorpora ao texto. Ao fazer-se real no espaço do poema, a linguagem cria a realidade, na medida em que esta só faz parte daquele espaço por sua efetivação”.
A poesia de João Cabral, no seu diálogo com escritores, pintores e arquitetos, representa fagulhas dispersas de uma vida que vibra. Assim, Cabral segue outro conselho de Drummond: “Desde que estejamos vivos, as experiências se realizarão dentro e fora de nós, e haverá possibilidade de progredir na aventura poética. O essencial mesmo é viver e acreditar na força formidável da vida, que é nosso alimento e nosso material de trabalho”.
Nesse sentido, pode-se dizer que, nas entrelinhas, O homem sem alma é um exame de uma luta contra a morte, que atormenta o poeta, pois representa o que é vago, o qual, por ser incapaz de encarar, como escreve no poema “Resposta a Vinicius de Moares”, tenta a todo custo evitar. Lembre-se que a biografia de Castello inicia com o poeta indo a um funeral do escritor Francisco de Assis Barbosa na Academia Brasileira de Letras, onde não se sente bem e é socorrido pelo amigo Otto Lara Resende. Nesse sentido, o combate contra esse “vago”, que Castello detalha nesse vital Diário de tudo que encerra o livro, é o que serve de base ao entendimento que fazemos de Cabral: irônico em seus poemas sobre a morte em Agrestes, de um humor-negro que poucos conseguiram traduzir em palavras na tradição brasileira, o poeta é incapaz de encará-la na realidade. Conforme Castello, Cabral admite, no poema-resposta a Vinicius, que seu “gosto pela precisão e pela claridade (…) não é uma escolha intelectual” e sim “o resultado de uma incapacidade para enfrentar o seu oposto: o vago, o indeterminado, o nebuloso”, ou seja, que sua opção pelo concreto é uma “sina” e não uma “opção”. No livro de Castello, o poeta não morre – a primeira edição de João Cabral de Melo Neto: o homem sem alma foi publicada em 1996, três anos antes de seu desaparecimento. Na realidade, o poeta não morreu dia 9 de outubro de 1999. Ele continua vivo nessa biografia de Castello, uma convite para começar a entendê-lo e mesmo – é o que também se espera – uma porta de entrada para conhecer sua obra completa. E, acima de tudo, uma parte da “força formidável da vida”, mesmo que cercada de melancolia, a que se referiu Drummond em sua carta.







A italiana Eluana Englaro, em 18 de janeiro de 1992, sofreu um grave acidente e, desde então, viveu em estado vegetativo em alguns hospitais da Itália. Ante o seu estado irreversível, segundo os médicos, seu pai lutou na justiça pela possibilidade de interromper sua alimentação (artificial)