Este texto que hoje posto já está escrito há mais tempo, porém por problemas técnicos não estava conseguindo publicá-lo no blog. Mas, devido a sua temática, tenho certeza que ainda permanece atual.
Inicio parabenizando a Equipe da revista IHU On-line, pela excelente entrevista realizada com o economista Marcio Pochmann, na edição 256 da referida revista, publicada em 28/04/2008.
Na entrevista, mérito da entrevistadora e da sua equipe e do entrevistado, é claro, vi Pochmann abordar temas que nem sempre estão muito presentes em suas qualificadas análises, mas que são de extrema relevância. Humildemente, gostaria de comentar estes temas, como forma de me solidarizar com as posições defendidas pelo entrevistado e de difundir esta discussão na academia e fora dela, uma vez que ela nem sempre é feita. As discussões propostas na entrevista, muitas vezes, passam batidas pela academia e até por movimentos sociais vinculados à questão do trabalho e pela sociedade como um todo, porque academia e sociedade, em sua maioria quem sabe, continuam pensando um mundo do trabalho mais Taylorista/Fordista, portanto muito mais material, em uma época de valores e produções muito mais imateriais.
Primeiro, quero destacar a fala de Pochmann onde ele afirma uma “heterogeneidade de situações”. Ora, o paradigma da complexidade mostra que há muita dificuldade em encontrarmos o “uno”, o modelo, o padrão, o único. Esta afirmação vale para diferentes dimensões, inclusive para o trabalho. E, na questão do trabalho, ela é importante em diferentes perspectivas. Primeiro para entendermos que temos trabalhadores num paradigma imaterial, de autonomia por exemplo; ao mesmo tempo e numa mesma organização por vezes, temos também trabalhadores num paradigma taylorista/fordista e outros num paradigma pré-fordista. Soma-se ainda a realidade atual os que a sociedade considera como não trabalhadores.
Ou seja, temos uma “multiplicidade de realidades” no contexto atual do trabalho. É importante entendermos esta multiplicidade e suas conseqüências, sem o sentimento de aboli-la, comum ao nosso já forjado desejo da padronização, para que possamos lidar com estas realidades quando pensamos, por exemplo, a gestão de pessoas, as estratégias organizacionais, as políticas públicas, a centralidade ou não do trabalho na vida das pessoas, dentre outras questões.
Segundo, a heterogeneidade também se reflete nas realidades organizacionais hoje. Há uma variedade de formas de gestão, de formas de “não controle controladoras”, de trazer para a produção das pessoas no chamado trabalho, para a organização portanto, não apenas a força produtiva de cada um e sim a vida das pessoas, suas vivências, suas subjetividades. Neste sentido, a heterogeneidade, o respeito às diferenças e ao diferente é fundamental e dá vazão a produção imaterial.
E aqui uma segunda afirmação de Pochmann, na qual ele mostra que as pessoas estão trabalhando muito mais. “Todos estão trabalhando muito mais. Isto faz com que as pessoas durmam com o trabalho e sonhem com ele”, afirma. É notável que a produção imaterial não permite as pessoas apenas trabalharem em seus locais de trabalho e nos horários preestabelecidos. Já não há uma clara separação entre espaços de trabalho (imaterial principalmente) e espaços de não-trabalho. As tecnologias da informação e de comunicação também influenciaram e influenciam nesta questão. Não sabemos muito bem quando estamos trabalhando, quanto esforço empregamos em um projeto, qual é nossa verdadeira jornada de trabalho, quanto custa e/ou deveria custar nosso trabalho, dentre outros. Desta forma, diante destes fatos, os instrumentos de regulação e de mensuração do trabalho estão em crise.
Esta diferenciação entre trabalho e não trabalho está cada vez mais difícil pois as empresas, as organizações, dependem da vida dos seus trabalhadores (e não do trabalho deles apenas) para que sejam flexíveis e inovadoras, e, desta forma, poderem atender a uma heterogeneidade e oferecer produtos e serviços personalizados, com forte componente imaterial e simbólico. Fico pensando em exemplos corriqueiros, simples, porém sem ter respostas claras sobre eles. O fato de uma pessoa, após sua jornada de trabalho ir para uma instituiç£o de ensino e lá cursar a sua graduação faz com que esta pessoa esteja, em sala de aula, num espaço de não trabalho ou de trabalho? Ela está lá se preparando para quê? As vivências que ela terá neste espaço serão utilizadas em suas produções materiais e imateriais? Mesmo que seu curso não tenha relação direta com seu trabalho atual, ela aplicará o que está discutindo, os saberes que está construindo. Aliás, me pergunto se ao escrever este texto, em uma tarde de “suposta folga”, por pura vontade de me expressar, se estou trabalhando ou não?
Neste sentido, vejo duas coisas muito relevantes que Pochmann também aponta. A riqueza das empresas está cada vez maior, também e principalmente graças a esta apropriação da vida das pessoas, dos seus colaboradores. É quase o que eu poderia chamar de “biotrabalho” em uma clara alusão ao conceito de “biopoder” de Hardt e Negri. Sendo assim é preciso repensar os conceitos de trabalho e reduzir a sua jornada drasticamente, pelo menos enquanto este tipo de regulação existir (de uma jornada de trabalho com horários a serem cumpridos).
Enfim, Pochmann aponta não mais para uma classe trabalhadora, mas sim para uma “multidão de trabalhadores” (novamente me socorrendo dos conceitos de Negri e Hardt sobre multidão). Multidão de trabalhadores esta que é capaz de produzir muito mais com muito menos recursos, que é capaz de se autogovernar e controlar-se, porém cujos objetivos e resultados das suas ações, das suas produções, não se sabe se nos levará a algo novo, positivo ou emancipador, ou à reprodução das relações de trabalho que temos hoje, precarizadas, de uma forma ainda mais perversa, ameaçando a sustentabilidade do planeta inclusive. A “multidão” e a “multidão de trabalhadores” são imprevisíveis e colocam em xeque os paradigmas atuais nas mais diferentes dimensões, inclusive no que tange ao trabalho.
Postado por Lucas Henrique da Luz – lhluz@unisinos.br